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Ruídos que nos alienam

No carro, o rádio. Do pacote de músicas comerciais, algures, em dia de sorte, uma em vinte que nos conforta. Muda-se frequentemente de frequência na esperança da roleta russa parar nalguma música que nos apeteça ouvir. Valham-nos os cd’s perdidos quando perdida estiver a paciência.
Na rua, os carros em fuga do tempo, buzinas, sirenes, motores ferozes de motas, talvez um cão protestante e o som do tacão dos nossos sapatos a marcar o ritmo da rotina.
Locais públicos são sede de orquestras devoradoras, qualquer loja de comércio nos ataca o pensamento com aquilo que não deve ser a Música, fogo de artifício, como Salvador Sobral lhe chamou. Somos, então, sugados pelas malhas do capitalismo, sem que conscientemente nos apercebamos. Informação desnecessária entra, sem licença, pela porta cerebral, ocupando espaços que poderiam ser culturalmente aproveitados. É o chamado ‘lixo urbano’ que infeta a nossa mente.
A sociedade não quer que paremos e esta roda infernal de ruídos pretende manter-nos em movimento, num movimento conjunto e doentio. Álvaro de Campos genialmente o descreveu na sua “Ode Triunfal”. O barulho das máquinas, das luzes, das fábricas, da música, das notícias, de tudo o que o modernismo trouxe, da publicidade, do marketing, da política, da ciência… Enfim, que cansaço civilizacional!
Já não há espaço para o Silêncio, para nos podermos reencontrar fora desta montanha russa. Tudo à nossa volta fala, grita, ruge. E nós, quem somos? Onde estamos?
Falta tempo de paz, tempo só nosso onde nos possamos silenciar. Porque o nosso silêncio é o mais difícil de calar. Silenciar o pensamento não é tarefa fácil, ainda mais com tanta informação a borbulhar, mas é urgente e necessário.
Alguém disse que o silêncio é um luxo, mas eu diria que é uma necessidade que não nos podemos dar ao luxo de dispensar.
É no silêncio que nos recordamos que somos mais do que as máquinas, que descansamos do barulho ensurdecedor do mundo, que podemos existir sem provarmos o nosso valor. Que reconfortante este Som de Paz!
Sabem o que é, para mim, um luxo? A partilha deste Silêncio! Podermos ter alguém com a alma exatamente sincronizada à nossa. A Paz conjunta, onde o som mais intenso é o bater de dois corações. Lugar onde as mãos se dão, onde o capitalismo não entra, onde as máquinas são nada e o importante é o que importa.
É nesse Silêncio que nos reconhecemos, que verdadeiramente existimos. Que nos alienamos de tudo o que nos perturba.
No Silêncio nenhum som é ruído e só se ouve o Divino.

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